Filho de Benito Di Paula lança disco

Filho de Benito Di Paula lança disco

*Créditos da imagem: Murilo Alvesso

Afetuosidade, intimidade e sinergia são algumas das sensações atribuídas a relações de irmandade – sejam elas estabelecidas entre pessoas com algum grau de parentesco ou não. Mas, por vezes, os laços amarrados por materiais genéticos e pelas afinidades adquiridas na vida coexistem nas mesmas relações. Isso fica claro em “O Mestre-sala da Minha Saudade”, quarto álbum do cantor, compositor e ator Rodrigo Vellozo. A obra chega acompanhada de uma produção audiovisual para a faixa-título e dilui um vasto acervo de vivências e sensibilidades para homenagear o irmão, André, que o artista perdeu em 2019.  O lançamento marca ainda a primeira gravação do pai, Benito Di Paula, cantando uma composição de Rodrigo, no caso “Lágrimas no Meus Sorriso”.

Produzido por Romulo Fróes, o disco mitifica a figura do mestre-sala ao resgatar a simbologia do carnaval para conduzir o tributo de 12 faixas – meticulosamente ordenadas para gravar no mundo a história de dois irmãos e cúmplices na vida. “É muito forte pra mim pensar no mestre-sala, que protege a bandeira da escola de samba, como o responsável por guardar a saudade. Evoca o samba, saudosismo e tudo da história da minha família. Da minha história com meu irmão também”, comenta o artista ao explicar a escolha da faixa-título para dar início à sua colagem de sonoridades. 

Na ilustração do “samba-saudade”, Rodrigo dá contornos heróicos à figura do personagem principal ao recorrer ao teatral figurino de João Pimenta, estilista conhecido por transmitir histórias por meio de suas criações. Ambientado em um cemitério de carros alegóricos próximo à escola Império da Casa Verde, na Zona Norte da capital paulista, o filme foi registrado no último dia antes do início do período de quarentena em São Paulo. 

“Foi a última coisa que todos nós, da produção, fizemos. Isso tudo tem uma simbologia pra mim. Loucamente, no próximo ano ainda nem sabemos se vai ter carnaval. Isso torna tudo mais forte ao meu ver”, destaca. O videoclipe ainda traz uma intervenção de Marcelino Freire, poeta pernambucano vencedor dos prêmios literários Jabuti e Machado de Assis e co-autor da última faixa do disco, “Poeminha Sem Salvação”.

Assista aqui ao clipe: 

Além da imagem carnavalesca do par da porta-bandeiras, outras figuras ganham espaço nessa grande narrativa. “Pássaro Negro”, nona música do álbum e única letra assinada por ele no repertório, retoma a figura de uma ave de plumagem escura já referenciada nos versos da primeira faixa. “Eu compus há muitos anos, em homenagem ao meu pai. Depois, eu e o Romulo fizemos modificações e aí ela passou a falar do meu irmão. Na verdade, eles são muito parecidos. Nós três somos. Até fiquei na dúvida se eu tava expondo isso demais”, confessa.

Também com participações de nomes relevantes da música brasileira, como  Benito Di Paula (“Lágrimas No Meu Sorriso”), Xande De Pilares (“O Samba Que Esqueceu”) e Alice Coutinho (“Hiato”), o disco nasce impulsionado por outra produção em dupla, a canção e o show “Trágico” (2018). “Anos atrás eu gravei essa música com a Assucena Assucena, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Fiz um show com o mesmo nome e sinto que O Mestre-Sala é uma ampliação disso, reverberada por todos os acontecimentos”, conta Rodrigo. 

Por meio das colaborações, a densidade dos sentimentos aos quais o artista recorre nas letras encontra leveza e momentos de respiro. “A participação do Xande é um presente. A força e alegria do canto dele fazem todo sentido pra passar a ideia de ‘O Samba Que Esqueceu’: arte não resolve nenhuma dor – mas alivia, ajuda a gente a sobreviver às coisas de alguma maneira”, diz sobre a presença do amigo na letra escrita por Rodrigo Campos.

As nuances de esperança também ressoam na imagem de André. Na penúltima faixa do disco, “Farol”, o cantor divide os vocais com Fróes e, novamente, volta-se à lembrança de seu irmão. Dessa vez, com um latente sentimento de esperança, representado pelo movimento da construção que dá nome à canção e alastra um facho de luz. “Ilumina esses lugares escuros e esse mundo distópico que apareceu em ‘Pássaro Negro’. O Mestre-sala carregado de saudade é como se fosse uma fala minha sobre meu irmão”, explica. 

O registro ainda é complementado pelas músicas “Sou”, “Me Diz”, “Sangue” e “Gravura”. 

Depoimento:

O FRUTO DO TRABALHO  /  O trabalho de Rodrigo Vellozo não é de agora. Vem sendo construído. Bem sabe quem o conhece como ator. Foi assim que o conheci, defendendo uns textos meus. A amizade começou ali. E a parceria. Ele que se misturou com minhas palavras, quis fazer umas canções a partir delas. Quem conhece Rodrigo Vellozo como compositor sabe da entrega dele. Ouvido atento, ele pesca, nos versos e nas letras e nas ideias, umas possibilidades sonoras. Isso, desde criança e adolescente ao lado do pai, genial. Com Benito di Paula apreendeu o amor à música. Canta maravilhosamente bem, toca piano idem, reverencia o bom repertório. Uma sensibilidade que ele segue aprofundando. Daí chegamos a esse laborioso “Mestre-Sala da Minha Saudade”. Saudade, até, bem recente. Com o desaparecimento de seu irmão, Rodrigo se voltou a mais um experimento. Pôs as mãos para vasculhar de perto uma solidão, um hiato, um farol. Arregimentou para esta missão a força de amigos feito Romulo Fróes. E do próprio pai que, com ele, defende a doída e tão necessária “Lágrimas no Meu Sorriso”. Sem contar que, ambos, não esperavam ter ainda de enfrentar uma pandemia pelo caminho. De alguma forma, anunciada no repertório por um clima de alegria finda que as composições trazem. Uma imagem de um Brasil, e de um mundo, que precisa ser ressignificada. Rodrigo Vellozo, apesar da dor e das dores, vem dar esse recado em seu novo trabalho. Agradecemos pelo fruto de seu tempo, a nós, amorosamente lançado.  [MARCELINO FREIRE, escritor]

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